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10 de outubro de 2009

A MULHER DE UM HOMEM SÓ

Há muitas espécies em extinção na natureza. Desde os ursos Panda até a “mulher de um homem só”.
Se por acaso alguém encontrar alguma por aí encaminhe para o Fantástico, pois se trata de raridade.

A “mulher de um homem só” para quem não sabe, só teve na vida, um único namorado, ainda na adolescência. Muito jovem casou-se com ele. Sua “performance” sexual limitava-se a alguns tímidos beijinhos (os famosos selinhos de hoje) e uma ou outra mão-boba na perna da donzela que, de tão culpada, rezava a noite inteira rosários e rosários em penitência. E de joelhos, para que o pecado fosse mais facilmente perdoado.

O encontro amoroso só podia acontecer no sofá da sala, aos domingos à tarde, sob a vigilância da família inteira que se revezava na guarda do hímen da moça.
Depois de muitas e silenciosas tardes de namoro começava a ficar urgente passar à próxima fase, a do noivado, ante-sala para o casamento. “Os outros” já estão falando , dizia o pai, referindo-se a urgência em casar os pombinhos antes que acontecesse o pior.

E o noivado era festejado com muita comida e muitos doces, familiares presentes na festa e uma bela aliança de ouro na mão direita dos noivos. Tudo isso vinha acompanhado de autorização paterna para andarem de mãos dadas e “de braços”. Podiam passear, mas sem dispensar o “doce- de- pera “.
A núpcias da “mulher de um homem só” eram rigorosamente preparadas e implicava em muita festa , despesas enormes, quase sempre maiores que o poder econômico de muitas famílias.

A festa durava o dia inteiro, tudo isso depois de semanas de exaustos preparativos. O vestido da noiva, obrigatoriamente branco, acompanhado de véu e grinalda de flores de laranjeira, só podia ser usado pelas moças-donzelas, virgens, de comportamento comprovadamente casto, avalizadas pelo pároco da igreja local, inclusive.

A preparação da vida futura da “mulher de um homem só” parava por aí. Ela sabia através de conversinhas com casadas recentes que teria que passar por grandes apuros na noite de núpcias, mesmo assim, munida de muita coragem, encarava o fálico marido com toda coragem de que dispunha. Traumaticamente chegava até o matadouro, vestida em camisola de sedas e rendas, de preferência branca para combinar com sua pureza. Curiosidade havia, mas o medo era maior. A possibilidade da dor superava qualquer possibilidade de esperar por algo que pudesse ser bom.

Era um ritual de passagem doloroso, sofrido, onde dor e alegria se confundiam. Muitas se separavam das famílias e iam viver em lugares distantes e como aves migratórias chegavam tristes acompanhadas daquele quase desconhecido que iria fazer gato e sapato da pobrezinha.

Mas era assim que tinha de ser e todas as moças queriam casar. Ficar solteira era uma vergonha. Solteironas, nem pensar. Seria a condenação de “ficar para titia” ou cuidar dos irmãos mais novos e arcar com os pais quando envelhecessem. Melhor o matadouro, morder o travesseiro e tornar-se mulher (como se já não o fossem). Tornar-se, para sempre, “mulher de um homem só”.
Ensinadas na lei do sacrifício e da doação acolheriam os filhos que deus mandasse, uma dúzia deles e nunca esqueceria nem o nome nem o aniversário de nenhum, afinal seu título era de nobreza- rainha do lar – quase uma santa.

Dava até a impressão que os filhos foram concebidos sem sexo, como Jesus. Essa mulher não podia ter a visão de seu marido despido. Sexo só santificado, diziam os padres. Tinha que passar pela água-benta, pelo confessionário e era preciso zelar a vida inteira pela reputação, abdicar de enfeites e perfumes.

Quem ouve uma história dessas nos dias de hoje pensa que é pura lenda. Mas ainda existem algumas dessas mulheres vagando por aí. Não conseguem entender muito bem quem são as extravagantes e voluptuosas” mulheres de muitos homens” que desfilam pelas ruas enfiadas em “jeans” apertados, barriguinhas à mostra, seios empinados, bundas arrebitadas, equilibrando-se em saltos muito altos e finos. Não se falando que exalam perfumes libidinosos que provocam paixões avassaladoras. Todas sem donos, livres pensam as “mulheres de um homem só” ou será que o mundo mudou tanto que agora são eles que têm de obedecer, comportar-se e se submeterem ao desejo delas?



Maria Alice

12 de setembro de 2009

INDEPENDÊNCIA E CASAMENTO

Muito se têm dito acerca do que é independência, mas será que alcançamos o verdadeiro sentido do termo?
Examinando o verbete no dicionário, encontraremos a palavra como sendo sinônimo de “autonomia”. Independente, portanto, é quem não depende, é autônomo, livre.
Ainda apoiando-nos nas regras da gramática, encontramos na parte que trata da sintaxe, que as orações se dividem em coordenadas e subordinadas. Coordenadas são as orações paralelas, sintaticamente equivalentes, ou seja, possuem a mesma importância no período, são independentes. Com as orações subordinadas, não acontece a mesma coisa. Elas só têm sentido se estiver completando outra, a oração principal.

No primeiro caso, das coordenadas, existe independência, autonomia; no segundo, das subordinadas essa condição desaparece. Nas relações coordenadas, a força geradora de sentido é a mesma, em todas as orações, já nas subordinadas a carga significativa encontra-se na principal.
Levando para as relações interpessoais, o exemplo gramatical serve como base de análise para a compreensão do que seja ser independente.
Tentando responder a pergunta se independência e casamento podem coexistir, se duas pessoas vivendo debaixo do mesmo teto, dividindo a mesma cama, o mesmo cobertor, a mesma geladeira, o mesmo banheiro entre outras coisas, podem ser independentes, autônomas?

Nas relações subordinadas o processo é bem diferente. Um é a pessoa que exerce o poder, que tem a força da decisão; cabe a outra acatar. Esse tipo de casamento é o que acaba em separação ou a mulher se conforma à situação aceita e fica , ou na fantasia de que é feliz ou sufoca com subterfúgios que ela mesma cria, suas insatisfações. E ficam assim, parecendo o casal perfeito. Apesar de a modernidade ter batido à porta dos casais do século XXI, ainda é muito comum esse tipo de situação.

Mas a saída para quem deseja estar casada e ao mesmo tempo poder se intitular independente, parece estar na escolha do parceiro. Queiramos admitir ou não, a “cara metade” deve, necessariamente, comungar desses princípios básicos de convivência, respeitando a se importando com a mulher com quem se casou, vendo-a como um ser individual, diferente dele, física e psicologicamente. Estar em comunhão com o outro, dar-se direitos iguais, estabelecer relações coordenadas. Pode ser difícil, mas não é impossível.

Não há independência na subordinação. Um casal precisa assemelhar-se aos trilhos de um trem, correm paralelos, tem a mesma importância no trajeto, mas são autônomos, individuais. Os valores essenciais têm de ser os mesmos, a boa educação, o respeito mútuo não podem ser negligenciados.

Não me parece que ser independente e casada seja impossível às mulheres de hoje. Não vejo também necessidade de deixar de viver as emoções do amor compartilhado, muito menos de isolar-se na solidão para poder ser independente. A verdadeira independência é um sentimento, um estado de espírito, uma garantia de sobrevivência aconteça o que acontecer. É maturidade e sabedoria, que precisa ser buscada e lapidada a vida inteira. É crescimento emocional.
Ser independente e amar, casada ou não? Com certeza, sim.

Maria Alice Guimarães

15 de agosto de 2009

A insustentável leveza do amor

O que mais se vê e ouve por aí é falar de amor.
Nada de novo. Sempre foi assim desde os bons tempos que só tínhamos o velho e bom rádio, música romântica invadindo corações carentes e solitários. Hoje, com a televisão mostrando amores impossíveis, paixões avassaladoras que sempre acabam dando certo no último capítulo, tudo leva ao desejo de viver essas emoções a qualquer preço. Tem ainda a Internet, que trouxe para a solidão amorosa de muitos o amor virtual. Novas tecnologias, novas possibilidades.

E o amor está cada vez mais no ar, na rede, nas ondas elétricas, cibernéticas etc. e tal. Difícil mesmo é encontrá-lo no coração das pessoas, mas isso é outra história, assunto para depois.
Hoje, depois de se ter banalizado quase tudo, inclusive a vida, o mais nobre dos sentimentos, imortal segundo muitos, vem sofrendo desse mal, coitado dele.

Confundido com paixão, alteração dos sentidos, instinto de reprodução, desejo sexual o pobre amor recebe de presente adjetivos, advérbios, vira substantivo composto para se tornar um grande amor, um amor sem fim, eterno, infinito e outros qualificativos que o justifiquem e amparem. Amor tem que rimar com dor, com flor, tem de ser doído, sofrido e, de preferência unilateral. Amor correspondido , raro, diga-se de passagem, não tem a menor graça. Amor gostoso tem que fazer sofrer, tirar o sono, e lá pelas tantas levar-se um belo pontapé no traseiro. Aí vira dor, dissabor, decepção e danos cardíacos.

Sem chance de durar para sempre esses sentimentos ditos amorosos, sucumbem na maioria das vezes. Batem de frente com outro tipo de amor, o amor - próprio, esse sim danado de se conter. Demora a se manifestar, mas quando aparece na jogada provoca reações até mesmo perigosas no amante desprezado. É o tipo mais perigoso de amor, pois se liga diretamente ao instinto de sobrevivência. Impulsionados por ele muitos sequestram, roubam e matam. Poucos conseguem sobreviver à solidão do abandono, a falta daquele amasso poderoso, daquele beijo que só o ser amado sabe dar.

E agora José?
Como viver sem os sininhos badalando nos ouvidos, a dorzinha de barriga, o friozinho no estômago. Como ouvir o Zezé Di Camargo e Luciano sem chorar? O mundo, antes primaveril e ensolarado vira em um inverno gelado e sem fim. A música mais ouvida passa a ser “Meu mundo caiu”. O ego despencou ladeira abaixo e a dor sai pelo ladrão. Um venenoso coquetel de emoções se apodera deste ser tão infeliz.

Ainda bem que dor-de-cotovelo tem cura. Um dia vem o socorro , não se sabe de onde. Deve ser do tal de amor-próprio, alerta o tempo todo, mas meio sem ação por conta da irracionalidade a que os sentimentos estavam sujeitos. E vêm os primeiros sinais de cura. Não era amor! Aleluia! Tratava-se de um sentimento forte, humano, irracional e estimulante, gostoso de sentir, mas que não se sustenta em si mesmo.O amor verdadeiro tem uma característica básica que é ser generoso, solidário e livre de dores e sofrimentos inúteis. É alegria, bem-querer e se sustenta em si mesmo.
Afora isso é pura confusão, insustentável.

O poliamor

Retomo a leitura de “A Cama na Varanda” de Regina Navarro Lins(1997), em nova edição e acrescida de mais um capítulo. O livro é fruto de pesquisa, portanto científico, nada subjetivo, apenas análise e informação. A autora é sexóloga e psicoterapeuta e se vale de estudos feitos por renomados estudiosos para fundamentar sua análise.

O livro vende como pão-quente. Pudera, o assunto interessa a todos desde homens e mulheres, até homossexuais de ambos os sexos. Aborda as tendências de como será em futuro bem próximo, as relações interpessoais no “Admirável Mundo Novo” que faz tempo, bate à nossa porta. Do homem das cavernas até o amor virtual muita água rolou e chegamos, segundo Regina, ao poliamor. É isto mesmo, poligamia ao invés de monogamia e este tipo de vivência amorosa promete.

Concebido pela geração “ficante”, no poliamor todo mundo é de todo mundo ou, se preferir, ninguém é de ninguém. Um novo império romano, a volta aos costumes tribais onde amor e sexo serão completamente desvinculados, a pluralidade de parceiros muito normal, o sexo pelo sexo, tudo sem precisar nunca mais rimar amor e dor. Não duvido nem morta. Do jeito que a coisa vai, ou melhor dito , vem vindo, o futuro será um bacanal só. A velha e boa dor-de-cotovelo tem seus dias contados.

Falência total do amor romântico, que inspirou tantos poetas , atormentou tantas almas apaixonadas e desvirtuou tantas vidas, está com prazo de validade vencido. A opção é desistir de sofrer e bandear-se para o poliamor, mais precisamente para o sofazão ou para a “web can”, revela a obra de Regina.

Solidão? Nem pensar. O poliamor supõe uma gama de variados parceiros, um para cada ocasião. Um bom de papo, outro bom de cama, alguém para viajar, passear, ir à praia, muito lazer e nenhum compromisso. Todos amigos que no dia seguinte seguem para suas vidas , felizes e satisfeitos, sem a carga do ciúme, da saudade e o consequente temor do velho “chifre” . Cada um pagando suas contas sozinho, gerindo seu dia- a- dia na mais perfeita paz emocional e com sua sexualidade resolvida.

Será que dá? A pergunta é minha e nela não há qualquer ansiedade por resposta, nem que sim, nem que não. Eu também duvidava, não faz tanto tempo , que um dia teria um computador como companhia nas noites frias de inverno ( por opção pessoal, devo dizer) que dormiria sem soníferos , que teria um número de telefone só meu e o controle remoto da televisão e da minha vida estariam nas minhas mãos.
E não é que estão?

A portabilidade do amor

Amplamente divulgada nos meios de comunicação a passeata dos “Sem Namorados”, que aconteceu no Rio de Janeiro semanas antes do dia dos que “Tem Namorados, 12 de junho de todos os anos”.

Objetivo? Encontrar a paixão de suas vidas, coisa nada nova, pois que sempre foi desejo de todos viverem um grande amor, de preferência uma paixão avassaladora. Isto é universal, pessoal e intransferível.
O mito é antigo e se sustenta no chamado “amor romântico”, uma das formas que os sentimentos entenderam por bem se manifestar.

Quem se joga na aventura da conquista amorosa está sujeito a perigosas provas, armadilhas muitas delas torturantes até. Como o estado amoroso é estimulante, anfetamínico, tem sucesso garantido e é recebido com alegria sempre que surge na vida tanto de mulheres quanto de homens. Esses, menos afoitos, mas todos em busca de sua Bela Adormecida que, depois de bem acordada irá lavar suas camisas, meias e cuecas e , de quebra, cozinhar, limpar o ninho de amor com muita paciência e um sorriso nos lábios, até que a morte ou a vida os separe .

Mas vá lá, a tortura faz parte do jogo. Ter as emoções estimuladas, para a maioria, é a tal felicidade. Viver no fio da navalha, na corda bamba, impulsiona, empurra, mas vale cuidar. Pode ser que esse impulso seja para um abismo, um precipício. Aí danou-se, mas correr riscos é aconselhável, senão a vida fica meio sem graça, dizem os entendidos.Com um pouco de sorte pode-se ultrapassar a marca de dois ou três anos, que dizem ser o prazo de validade do amor romântico, depois as baterias vão enfraquecendo até terminar a carga. Mas vivemos a modernidade, novos ares, tempos de “portabilidade”, de ficantes, namoridos, amizades coloridas e amores virtuais.

Em pouco tempo pode-se ficar novinhos em folha para participar de outras passeatas e começar tudo de novo com esperança e fé renovadas. É só trocar de operadora ou de site de relacionamento e usufruir das últimas novidades do mercado e das vantagens que a modernidade oferece.

Nada de errado em se optar por esta ou aquela forma de amor, mas sempre é bom guardar uma reserva de energia para o dia seguinte. Como toda bebida falsificada o amor romântico favorece a ressaca. Vale, entretanto viver esta emoção, até mesmo protestar em passeatas barulhentas por um amor verdadeiro, mesmo que venha numa bela embalagem com conteúdo falsificado e que o príncipe se transforme em sapo e Bela Adormecida acorde com ganas de voltar a dormir, de preferência com outro.

A noite em que fui embora

“ Hoje eu sei por que a um tempo atrás eu não fui embora. Não fui por que não queria sentir a dor que estou sentindo agora. “

Noites frias de inverno conseguem ser as mais tristes e por isso as mais adequadas para chorar, andar por ruas vazias e sentir o verdadeiro sentido do que é solidão. São noites de ir embora.

Solidão existe sim. É quando algo se rompe, se perde, se esvai. Ficar só não é a solidão absoluta. Solidão é dor, é rompimento, é deixar de ter para sempre. É vazio que fica quando perdemos um pedaço de nós que nunca mais nos será devolvido. É perda total. Deve ser por isso que dói tanto.

Não é que não soubesse qual seria a sensação da dor. Sabia, mas não queria sentir. Agarrava a esperança e ela fugia. A esperança ficou cansada e se recolheu. Foi enfraquecendo e caiu prostrada, desistiu antes que se tornasse desmoralizada. Deu um basta, abandonando a luta a muito perdida. Rompimento, separação, dor e tudo sem esperança. Sufocante. Um pedaço inteiro do peito fora cortado, esmagado, sem piedade.

E era noite de inverno, sem ninguém naquelas ruas estranhas, sem gente e de casas fechadas. Só os faróis de poucos carros passando sem saber que tanta dor queria pegar carona pra bem longe dali. Medo, agonia e raiva, certo alívio aquietava a alma. Estava tudo chegando aos minutos finais. O jogo acabara sem vencedor. Todos haviam perdido um pouco de si, um pedaço irrecuperável de vida.

Nada poderia ser resgatado. Um amor condenado à morte pela insensatez, pelo preconceito, pela falta de coragem. Morto e andando sem rumo pelas ruas mortas daquela cidadezinha sem nenhum sentido. Morrendo só, sem ninguém que lhe segurasse a mão, sem tiro nem facada. Morrendo de inanição, de fraqueza, de fome ou porque não era de verdade, não era tão amor assim.

Mas como sabia doer, como sabia chorar. E se doía e chorava é porque era, porque foi e só estava indo embora desse jeito porque estava esgotado, cansado de querer ser sem poder ser. E se perguntando e se martirizando, com a certeza que seria um pouco eterno. Essa era a pior parte, ficar no eterno sem poder se libertar. Ficaria para sempre vagando naquelas ruelas frias ou se tornaria lembrança ou esquecimento? Qualquer coisa que não doesse tanto. Cicatrizes talvez, uma marca que ficasse para sempre, mas que não machucasse daquele jeito.

Antecipava a certeza de que sentiria para sempre o seu cheiro, que as marcas de suas mãos ficariam em mim enquanto eu vivesse. Cruel e insensato, mas por mais que não se deseje, o outro faz parte dessa engrenagem um tanto sórdida que nem mesmo a gente deseja se livrar. Vira saudade, esquecimento do que não se quer lembrar e nas noites frias sentimos a falta do calor dos corpos se misturando, se ajudando a aquecer.

É, vai virar saudade. Amor vira saudade sempre. Dorzinha perigosa de sentir. Perigosa demais. Dá vontade de voltar atrás, mesmo sabendo que nada será diferente do que foi, do que nos trouxe até aqui, a esta ruazinha deserta nesta noite fria, a esta dor sem volta, a esse tormento tirânico e insensato.
Eu não quis seguir com ele, mas sei que vai me fazer falta, que não vou nunca mais viver um amor como esse, que esgotei minha capacidade de me fundir com quem quer que seja.

Vou ter que aprender a ocupar esse espaço tão grande e tão vazio que ficou no meu peito, queimando e ardendo feito brasa.
E cheguei ao fim do caminho. Já vejo algumas janelas e portas abertas. Estou voltando para onde comecei. Logo estarei em casa . Amanhã será outro dia, quem sabe haverá sol e caminharei pelas ruas conhecidas da minha cidade, sem medo e sem sentir a dor que estou sentindo agora.