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15 de agosto de 2009

Colcha de retalhos

Vivemos em tempos de edredons e cobertores sintéticos, mas há quem conheça a artesanal e antiga “colcha de retalhos”.
Para quem não sabe, a colcha de retalhos era, pacientemente elaborada, a partir do aproveitamento de pequenas sobras de tecidos, num tempo em que as roupas eram feitas quase que exclusivamente por habilidosas costureiras.

O tempo andava mais devagar e as mulheres ainda não trabalhavam fora de casa. Ocupavam-se com a criação dos filhos, com afazeres domésticos e nas horas vagas se esmeravam em produzir belas e trabalhosas artes manuais, entre elas a colcha de retalhos que ainda sobrevive em velhos baús de umas poucas e saudosas vovós. Uma espécie de museu particular, no mesmo lugar onde, talvez, guardem lembranças de sonhos perdidos no tempo.

A vida da gente se assemelha muito a uma colcha de retalhos. É feita de pequenos pedaços presos um ao outro, cada um com sua cor, mais ou menos macios, alegres ou tristes. O resultado depende do acabamento que damos, de como aproveitamos cada pedacinho das sobras que a vida nos dá. Cada um contém uma história, com começo, meio e fim. Alegrias, tristezas, realizações e fracassos, horas de pouco, momentos de muito. São os nossos pedaços, a riqueza pessoal de cada um, a história que se construiu. E há os retalhos que se jogou fora por desperdício ou por não se saber que um dia nos fariam falta.

Depois de um tempo pode-se visualizar a colcha de retalhos que já se conseguiu montar. Umas são coloridas, com muito vermelho, efeito de muitas paixões ou quem sabe escuras, com muitas partes onde predominaram retalhos de cor preta, demarcando os momentos inevitáveis de tristeza e dor. Mas há os retalhos brancos, talvez sobras românticas do vestido de noiva, o azul do pequeno casaquinho de bebê do nosso primeiro filho, quem sabe o retalhinho cor- de- rosa da blusinha que nossa filha vestiu no aniversário de um ano. Em um canto está o amarelo-ouro lembrando o pé de bergamotas maduras, caindo às pencas e ao alcance de nossas mãos gulosas, retalhos de felicidade infantil.

Assim, dentro de cada um existe uma colcha de retalhos. Cada vez que vem à lembrança uma história vivida é um daqueles pedacinhos que aparece mais que os outros, que se impõe e nos faz falar dele às vezes com tristeza, mas sempre com saudade.

Pois vou tirar do baú minha colcha de retalhos. Quem quiser pode olhar, mas por favor , não toquem nela nem me peçam de presente e nem de herança. Não posso dá-la a ninguém nem me desfazer dela. Vai me fazer falta quando a velhice chegar. Vai me abrigar e aquecer meus últimos invernos, afinal não é todo mundo que pode olhar e dizer “minha colcha de retalhos foi tecida com minhas próprias mãos”. Deu muito trabalho , muitos pedaços foram deixados pelo chão, mas alguns usei para secar as lágrimas que não pude evitar que caíssem enquanto eu a tecia, mas agora , depois de pronta me orgulho dela. É linda! É minha!

Saudade

“A saudade é minha dor preferida; é sinal de que a felicidade me visitou.”
A frase, é claro, não é minha, e também não sei dizer o nome do autor, a quem peço desculpas pelo lapso de memória, cada vez mais freqüente.

Mas gosto desta frase, talvez porque guardo comigo muitas lembranças, umas até bem recentes, mas que já decidi colocar no passivo. Lembranças que impulsionam o lado da memória onde se guarda a saudade. Hoje é domingo. O primeiro do ano em que a chuva cai prenunciando a chegada do inverno.

Tudo para experimentar uma tarde de introspecção e aproveitar para sentir saudade. Como diz a frase que abre este texto “saudade é dor”, mas não é dor do mal, é dor do bem. Só se sente saudade do que de bom ficou para trás e que nos oportunizou viver momentos de felicidade. Pois é, quem teve a chance de viver experimentou a felicidade. A muito poucos é dado este privilégio de sentir-se feliz. Muitos nem sequer têm consciência de quando estão vivendo seus melhores momentos e há quem não compreenda o que é realmente este estado de graça.

Sentir saudade é a certeza póstuma de que, em algum momento estivemos felizes. Pode ter sido naquele dia que tomamos banho de mar, que corremos atrás de uma bola, que dançamos até a exaustão ou que conhecemos àquela pessoa de quem nunca vamos esquecer, nosso primeiro amor, nosso melhor amigo, o nascimento de um filho, as brincadeiras na infância, entre tantos e tantos momentos de alegria e festa.

Na saudade o coração da gente se rompe, quando alguma coisa fora de nós bate com força e libera as lembranças, como esta chuva que hoje teima em cair provocando sensação de frio e de abandono.
A sensibilidade humana é assim, dicotômica, dual, inquieta e insatisfeita. Quem opta por estar só tem a vantagem de se gerir, de ocupar um espaço que se sabe conquistado a duras penas, mas está sujeito a sentimentos que espreitam silenciosos nos escaninhos escuros da nossa memória. Quase sempre saem para passear nos dias de chuva, nas tardes de domingo, como hoje.

E trazem pela mão a saudade e faz a gente sentir aquela dorzinha no peito, o coração apertado. Alguém que se foi para sempre, outro que está indo e que não conseguimos segurar, começa a fazer falta. Tudo o que pensávamos descartados para sempre das nossas vidas nos assombra em determinados momentos. Nossos sonhos desfeitos, as esperanças perdidas as separações inevitáveis.

Tudo faz sofrer, mas nada que as boas lembranças não consigam afastar, mesmo porque essas coisas são humanas e provam que temos sentimentos nobres. A saudade é nobre, mesmo que nos torne melancólicos por uma tarde. E, se esta tarde for de um domingo chuvoso e doer na gente é só pensar que amanhã o dia poderá nascer fresco e ensolarado.

Mas tudo isso são “conversas de domingo”...