3 de novembro de 2009

VIDA E POESIA

"A vida pode ser poesia e a poesia sopra onde quer. Sentir a sensação da vida leva-nos a conseguir o que se deseja e a felicidade é querer e ter apreço por tudo que se conseguiu, mesmo que seja aparentemente pouco. Sempre se pode fazer um novo começo. Felicidade não é o que as pessoas têm, mas o que elas fazem com o que tem. A vida é uma sequência de dias vazios, como se fossem folhas de papel em branco. Cabe a nós escrever nossa história, preencher essas páginas com nossos sonhos e com nossas verdades, com aquilo que acreditamos ser o melhor. Angústias e medos só fazem mal. São crueldades que não devem ser alimentadas. A alegria é colorida, contagiante e benévola. Voluptuosa também, portanto irresistível. O melhor momento da nossa vida é o que estamos vivendo."

Maria Alice Guimarães

23 de outubro de 2009

VIDA

Eu não quero morrer sem ter vivido o dia, nem quero morrer antes de saborear a vida.
Eu não quero me acostumar com o frio do inverno; quero sentir o sol e molhar meus pés na água do mar.
Eu não quero minhas janelas fechadas. Quero a amplidão...
Não quero o sobressalto da hora, do atraso, do medo; quero a liberdade de gritar no vento.
Eu não quero me acostumar a poupar a vida; quero gastá-la todinha.
Ela foi dada a mim e não posso deixá-la de herança para ninguém.

Maria Alice Guimarães

21 de outubro de 2009

A LÍNGUA PORTUGUESA

Ela não é fácil nem maleável. Não possui nenhuma sutileza, a não ser a do pensamento de quem usa e abusa de suas palavras na tradução dos pensamentos de amor e ódio, de rimas mal feitas em versos e inversos. É um desafio a quem escreve. É como montar um cavalo que não foi domado. Tenho tentado em vão parar seu fogoso galope. Nossa língua não fica pronta nunca; é um constante vir a ser, uma mutante bela e despudorada, que se veste e se despe como virgem límpida e pura.

SOLIDÃO

O que tenho pra te oferecer é minha solidão. Ela é tudo que sobrou de mim,.
É o que te posso dar . Tenho demais, posso repartir. Fica com ela por tua companheira. Nela encontrarás o amor que te dará alento nas tuas noites de saudade.
É o meu legado. Fica com ela.

CORAGEM

Quero ficar sem nada, mas quero que Deus me dê coragem para viver sem a tua presença.
Que eu possa penetrar nesse vazio com a plenitude amorosa da minha alma ofendida.
Peço coragem para me enfrentar sem medo de mim mesma
Que eu nunca precise me procurar , que eu esteja sempre ao alcance da minha busca.

DOAÇÃO

Doa-se um velho coração ...Sofrido, maltratado, mas que ainda bate com força Com o sério defeito de continuar moleque e atrevido Doa-se um coração usado, calejado e machucado que teima em continuar, sonhando e se iludindo. Doa-se um coração inconsequente, carente, precipitado que nunca desiste, que sempre insiste, que não aprende e que não se rende. Doa-se um coração velho e sem juízo, meio abestado, muito cansado, surdo, cego e mudo, mas que guarda uma reserva bem grande de amor.

Maria Alice Guimarães

10 de outubro de 2009

A MULHER DE UM HOMEM SÓ

Há muitas espécies em extinção na natureza. Desde os ursos Panda até a “mulher de um homem só”.
Se por acaso alguém encontrar alguma por aí encaminhe para o Fantástico, pois se trata de raridade.

A “mulher de um homem só” para quem não sabe, só teve na vida, um único namorado, ainda na adolescência. Muito jovem casou-se com ele. Sua “performance” sexual limitava-se a alguns tímidos beijinhos (os famosos selinhos de hoje) e uma ou outra mão-boba na perna da donzela que, de tão culpada, rezava a noite inteira rosários e rosários em penitência. E de joelhos, para que o pecado fosse mais facilmente perdoado.

O encontro amoroso só podia acontecer no sofá da sala, aos domingos à tarde, sob a vigilância da família inteira que se revezava na guarda do hímen da moça.
Depois de muitas e silenciosas tardes de namoro começava a ficar urgente passar à próxima fase, a do noivado, ante-sala para o casamento. “Os outros” já estão falando , dizia o pai, referindo-se a urgência em casar os pombinhos antes que acontecesse o pior.

E o noivado era festejado com muita comida e muitos doces, familiares presentes na festa e uma bela aliança de ouro na mão direita dos noivos. Tudo isso vinha acompanhado de autorização paterna para andarem de mãos dadas e “de braços”. Podiam passear, mas sem dispensar o “doce- de- pera “.
A núpcias da “mulher de um homem só” eram rigorosamente preparadas e implicava em muita festa , despesas enormes, quase sempre maiores que o poder econômico de muitas famílias.

A festa durava o dia inteiro, tudo isso depois de semanas de exaustos preparativos. O vestido da noiva, obrigatoriamente branco, acompanhado de véu e grinalda de flores de laranjeira, só podia ser usado pelas moças-donzelas, virgens, de comportamento comprovadamente casto, avalizadas pelo pároco da igreja local, inclusive.

A preparação da vida futura da “mulher de um homem só” parava por aí. Ela sabia através de conversinhas com casadas recentes que teria que passar por grandes apuros na noite de núpcias, mesmo assim, munida de muita coragem, encarava o fálico marido com toda coragem de que dispunha. Traumaticamente chegava até o matadouro, vestida em camisola de sedas e rendas, de preferência branca para combinar com sua pureza. Curiosidade havia, mas o medo era maior. A possibilidade da dor superava qualquer possibilidade de esperar por algo que pudesse ser bom.

Era um ritual de passagem doloroso, sofrido, onde dor e alegria se confundiam. Muitas se separavam das famílias e iam viver em lugares distantes e como aves migratórias chegavam tristes acompanhadas daquele quase desconhecido que iria fazer gato e sapato da pobrezinha.

Mas era assim que tinha de ser e todas as moças queriam casar. Ficar solteira era uma vergonha. Solteironas, nem pensar. Seria a condenação de “ficar para titia” ou cuidar dos irmãos mais novos e arcar com os pais quando envelhecessem. Melhor o matadouro, morder o travesseiro e tornar-se mulher (como se já não o fossem). Tornar-se, para sempre, “mulher de um homem só”.
Ensinadas na lei do sacrifício e da doação acolheriam os filhos que deus mandasse, uma dúzia deles e nunca esqueceria nem o nome nem o aniversário de nenhum, afinal seu título era de nobreza- rainha do lar – quase uma santa.

Dava até a impressão que os filhos foram concebidos sem sexo, como Jesus. Essa mulher não podia ter a visão de seu marido despido. Sexo só santificado, diziam os padres. Tinha que passar pela água-benta, pelo confessionário e era preciso zelar a vida inteira pela reputação, abdicar de enfeites e perfumes.

Quem ouve uma história dessas nos dias de hoje pensa que é pura lenda. Mas ainda existem algumas dessas mulheres vagando por aí. Não conseguem entender muito bem quem são as extravagantes e voluptuosas” mulheres de muitos homens” que desfilam pelas ruas enfiadas em “jeans” apertados, barriguinhas à mostra, seios empinados, bundas arrebitadas, equilibrando-se em saltos muito altos e finos. Não se falando que exalam perfumes libidinosos que provocam paixões avassaladoras. Todas sem donos, livres pensam as “mulheres de um homem só” ou será que o mundo mudou tanto que agora são eles que têm de obedecer, comportar-se e se submeterem ao desejo delas?



Maria Alice