21 de outubro de 2009

CORAGEM

Quero ficar sem nada, mas quero que Deus me dê coragem para viver sem a tua presença.
Que eu possa penetrar nesse vazio com a plenitude amorosa da minha alma ofendida.
Peço coragem para me enfrentar sem medo de mim mesma
Que eu nunca precise me procurar , que eu esteja sempre ao alcance da minha busca.

DOAÇÃO

Doa-se um velho coração ...Sofrido, maltratado, mas que ainda bate com força Com o sério defeito de continuar moleque e atrevido Doa-se um coração usado, calejado e machucado que teima em continuar, sonhando e se iludindo. Doa-se um coração inconsequente, carente, precipitado que nunca desiste, que sempre insiste, que não aprende e que não se rende. Doa-se um coração velho e sem juízo, meio abestado, muito cansado, surdo, cego e mudo, mas que guarda uma reserva bem grande de amor.

Maria Alice Guimarães

10 de outubro de 2009

A MULHER DE UM HOMEM SÓ

Há muitas espécies em extinção na natureza. Desde os ursos Panda até a “mulher de um homem só”.
Se por acaso alguém encontrar alguma por aí encaminhe para o Fantástico, pois se trata de raridade.

A “mulher de um homem só” para quem não sabe, só teve na vida, um único namorado, ainda na adolescência. Muito jovem casou-se com ele. Sua “performance” sexual limitava-se a alguns tímidos beijinhos (os famosos selinhos de hoje) e uma ou outra mão-boba na perna da donzela que, de tão culpada, rezava a noite inteira rosários e rosários em penitência. E de joelhos, para que o pecado fosse mais facilmente perdoado.

O encontro amoroso só podia acontecer no sofá da sala, aos domingos à tarde, sob a vigilância da família inteira que se revezava na guarda do hímen da moça.
Depois de muitas e silenciosas tardes de namoro começava a ficar urgente passar à próxima fase, a do noivado, ante-sala para o casamento. “Os outros” já estão falando , dizia o pai, referindo-se a urgência em casar os pombinhos antes que acontecesse o pior.

E o noivado era festejado com muita comida e muitos doces, familiares presentes na festa e uma bela aliança de ouro na mão direita dos noivos. Tudo isso vinha acompanhado de autorização paterna para andarem de mãos dadas e “de braços”. Podiam passear, mas sem dispensar o “doce- de- pera “.
A núpcias da “mulher de um homem só” eram rigorosamente preparadas e implicava em muita festa , despesas enormes, quase sempre maiores que o poder econômico de muitas famílias.

A festa durava o dia inteiro, tudo isso depois de semanas de exaustos preparativos. O vestido da noiva, obrigatoriamente branco, acompanhado de véu e grinalda de flores de laranjeira, só podia ser usado pelas moças-donzelas, virgens, de comportamento comprovadamente casto, avalizadas pelo pároco da igreja local, inclusive.

A preparação da vida futura da “mulher de um homem só” parava por aí. Ela sabia através de conversinhas com casadas recentes que teria que passar por grandes apuros na noite de núpcias, mesmo assim, munida de muita coragem, encarava o fálico marido com toda coragem de que dispunha. Traumaticamente chegava até o matadouro, vestida em camisola de sedas e rendas, de preferência branca para combinar com sua pureza. Curiosidade havia, mas o medo era maior. A possibilidade da dor superava qualquer possibilidade de esperar por algo que pudesse ser bom.

Era um ritual de passagem doloroso, sofrido, onde dor e alegria se confundiam. Muitas se separavam das famílias e iam viver em lugares distantes e como aves migratórias chegavam tristes acompanhadas daquele quase desconhecido que iria fazer gato e sapato da pobrezinha.

Mas era assim que tinha de ser e todas as moças queriam casar. Ficar solteira era uma vergonha. Solteironas, nem pensar. Seria a condenação de “ficar para titia” ou cuidar dos irmãos mais novos e arcar com os pais quando envelhecessem. Melhor o matadouro, morder o travesseiro e tornar-se mulher (como se já não o fossem). Tornar-se, para sempre, “mulher de um homem só”.
Ensinadas na lei do sacrifício e da doação acolheriam os filhos que deus mandasse, uma dúzia deles e nunca esqueceria nem o nome nem o aniversário de nenhum, afinal seu título era de nobreza- rainha do lar – quase uma santa.

Dava até a impressão que os filhos foram concebidos sem sexo, como Jesus. Essa mulher não podia ter a visão de seu marido despido. Sexo só santificado, diziam os padres. Tinha que passar pela água-benta, pelo confessionário e era preciso zelar a vida inteira pela reputação, abdicar de enfeites e perfumes.

Quem ouve uma história dessas nos dias de hoje pensa que é pura lenda. Mas ainda existem algumas dessas mulheres vagando por aí. Não conseguem entender muito bem quem são as extravagantes e voluptuosas” mulheres de muitos homens” que desfilam pelas ruas enfiadas em “jeans” apertados, barriguinhas à mostra, seios empinados, bundas arrebitadas, equilibrando-se em saltos muito altos e finos. Não se falando que exalam perfumes libidinosos que provocam paixões avassaladoras. Todas sem donos, livres pensam as “mulheres de um homem só” ou será que o mundo mudou tanto que agora são eles que têm de obedecer, comportar-se e se submeterem ao desejo delas?



Maria Alice

20 de setembro de 2009

COMO UM RAIO DE SOL INVIESADO

Um dia voltei ao lugar em que fui feliz!
Há quem concorde que não se deve voltar a esse lugar. Ele deve ficar congelado na memória como uma lembrança , uma doce reminiscência dando-nos a alentadora certeza que um dia conhecemos a felicidade .

Desobedeci o antigo conselho, cujo autor nem mesmo sei quem foi. E era um domingo de primavera , daqueles silenciosos e mormacentos. Não havia sol e se havia escondeu-se ao me ver para que eu ficasse mais triste naquela visita de saudade.

Caminhei pela estrada de cascalhos até onde era a casa em que cresci. Não havia nada lá , nem mesmo o velho poço eu encontrei. Estava escondido pela vegetação quase mato fechado.
Os pés de laranjeira haviam sumido da mesma forma que sumiram as pereiras , as goiabeiras e todas as árvores que eu conhecera tão bem. Apenas o velho pé de bananeiras sobreviveu meio enferrujado , sem viço.

Senti uma dor aguda no peito, como se houvessem me tirado um pouco da minha essência, da minha alma.Eu já havia feito a maior parte da travessia da vida e sabia que os sonhos que ali havia sonhado estavam muitos deles me espionando entre as poucas árvores que o tempo não conseguiu derrubar. Meu antigo oásis de felicidade transformara-se em um deserto.

Pensei na sequência interminável de sucessivos dias de sol, de chuva, a geada dos invernos sempre tão frios, na névoa úmida, nos temporais e nas cheias do rio .Tudo corroendo as sobras dos meus sonhos, murchando as flores que eu plantara com tanta esperança na minha longinqua juventude.
Mas tudo estava ali e eu podia sentir na ausência, a presença do meu amor de infância, do aconchego das pessoas que me ensinaram as primeiras lições que se tem de aprender na vida, do chá de erva-cidreira , do fogão de lenha , dos banhos no rio, das cantigas de roda, das cavalgadas livre pelas estradas empoeiradas .

Encontrei uma pedra e sentada, abracei meus joelhos. Uma vontade muito grande de chorar atravessou-me a garganta. De todos os meus sonhos o mais bonito ficou ali, solto no ar e agora quase materializava-se diante de mim sem que eu pudesse aprisioná-lo novamente. Um sonho de amor rebelde , tão rebelde que foi em busca das fronteiras do mundo que ficavam atrás dos morros azulados , do outro lado do rio. Nunca mais voltou, mas ainda me fere como um raio de sol enviesado.

Um dia chegarei ao fim da jornada. Terei os pés ainda cobertos de poeira ,a pele queimada pelo sol do caminho, o corpo cansado de tantas andanças repousará à sombra das laranjeiras . Vou encontrar ainda o velho poço e beberei de sua água fresca e pura. Até o pé de camélias ressuscitada florido. Ouvirei o som dos teus passos nos cascalhos da estrada e seremos felizes para sempre...

Maria Alice Guimarães

14 de setembro de 2009

AS ESPIÃS DE DEUS

Confesso meu especial encantamento pelo sexo feminino. Gosto de analisar as mulheres, ler e estudar sobre elas, tentar entender seus anseios, talvez por ser uma delas, ou quem sabe, por não ter tido filhas nem netas, mas ter crescido em um núcleo familiar composto, basicamente, por muitas mulheres.

Luis Fernando Veríssimo, diz em uma de suas crônicas que “mulheres são espiãs de Deus”. E lá fui eu, de novo, em busca de descobrir mais sobre minhas musas..Jovens, maduras, loiras, morenas, gordas , magras, de norte a sul do Brasil, todas possuem os mesmos dons, os mesmos atributos básicos. O que as diferencia não as torna tão diferentes, porquanto as faz mais iguais.

Mulheres são mães, preparam gente dentro de si. Deus não confiaria essa tarefa de reproduzir sua imagem e semelhança a um “reles mortal”. E, depois de gerar vida, elas são capazes de ensinar como vivê-la, tudo isso com amor incondicional e disponibilidade total. Mesmo as que por qualquer motivo , seja de escolha própria ou não, não têm filhos biológicos, acabam por exercer a maternidade em qualquer tempo, sendo professoras, médicas, psicólogas, adotam seus sobrinhos como filhos e, na velhice de seus pais, trocam de lugar com eles e passam a ser suas mães. E quantas servem de mães a seus irmãos mais novos e até mesmo para seus maridos?

Mulheres possuem sexto sentido. Disso ninguém duvida. Percebe, sente e pressente . Até mesmo o choro feminino é diferente do choro masculino. Poucos homens choram, mas todas as mulheres vazam, extravasam, desidratam-se de tanto chorar. E fazem isso sem medo de serem julgadas , rotuladas de frágeis ou de fracas. E fala com os olhos, diz com gestos, se arranja sozinha sempre que a vida aperta seu nó em torno dela.

Mulher confunde sexo com amor, mas até isso parece propósito da natureza. Dessa forma colocam amor , que é puramente espiritual, em algo que, primitivamente, estaria apenas no âmbito físico, ligado apenas à procriação. Desta forma sacralizam a profanidade das relações carnais e os filhos passam a ser produtos do amor antes de serem conseqüência dos instintos sexuais humanos. É a parte divina do mistério da Criação, por isso espiãs de Deus.

E alguém duvida que as mulheres possuam cérebro? O que há de errado em possuir um? Sustentar-se, ter autonomia, desejos, ambições, opiniões próprias e coragem para expressá-las e tudo isso temperado com uma boa dose de ousadia é direito de toda mulher seja qual for seu estado civil, sua condição familiar, o lugar onde vive, a profissão que exerça. Nada disso se opõe à sua condição de mães, de perpetuadoras da espécie.

Muitas são as interpretações errôneas acerca do papel da mulher na sociedade contemporânea. É preciso atentar que ser inteligente, culta e independente não muda a essência feminina, apenas as tornam mais eficientes como companheiras de vida, não só para seus maridos ou namorados, mas também para todos com quem convivem.

Mulheres independentes e bem resolvidas não são raridade nos dias de hoje. Acho até que sempre existiram, de uma forma diferente, talvez, com outras vivências, outros valores , mas com a alma livre para voar sempre que fosse preciso. A consciência da necessidade de independência aumentou, com toda certeza, mas ampliaram-se as necessidades femininas. Alguns homens se sentem ameaçados por essa nova-velha versão feminina. Sinto muito, mas terão de correr atrás do prejuízo. Os toscos, inseguros e cafajestes não têm como segurar uma mulher dessas por mais “bonitinhos” que possam ser.
Serem homens das “espiãs modernas de Deus” requer muita eficiência

MARIA ALICE GUIMARÃES.

12 de setembro de 2009

INDEPENDÊNCIA E CASAMENTO

Muito se têm dito acerca do que é independência, mas será que alcançamos o verdadeiro sentido do termo?
Examinando o verbete no dicionário, encontraremos a palavra como sendo sinônimo de “autonomia”. Independente, portanto, é quem não depende, é autônomo, livre.
Ainda apoiando-nos nas regras da gramática, encontramos na parte que trata da sintaxe, que as orações se dividem em coordenadas e subordinadas. Coordenadas são as orações paralelas, sintaticamente equivalentes, ou seja, possuem a mesma importância no período, são independentes. Com as orações subordinadas, não acontece a mesma coisa. Elas só têm sentido se estiver completando outra, a oração principal.

No primeiro caso, das coordenadas, existe independência, autonomia; no segundo, das subordinadas essa condição desaparece. Nas relações coordenadas, a força geradora de sentido é a mesma, em todas as orações, já nas subordinadas a carga significativa encontra-se na principal.
Levando para as relações interpessoais, o exemplo gramatical serve como base de análise para a compreensão do que seja ser independente.
Tentando responder a pergunta se independência e casamento podem coexistir, se duas pessoas vivendo debaixo do mesmo teto, dividindo a mesma cama, o mesmo cobertor, a mesma geladeira, o mesmo banheiro entre outras coisas, podem ser independentes, autônomas?

Nas relações subordinadas o processo é bem diferente. Um é a pessoa que exerce o poder, que tem a força da decisão; cabe a outra acatar. Esse tipo de casamento é o que acaba em separação ou a mulher se conforma à situação aceita e fica , ou na fantasia de que é feliz ou sufoca com subterfúgios que ela mesma cria, suas insatisfações. E ficam assim, parecendo o casal perfeito. Apesar de a modernidade ter batido à porta dos casais do século XXI, ainda é muito comum esse tipo de situação.

Mas a saída para quem deseja estar casada e ao mesmo tempo poder se intitular independente, parece estar na escolha do parceiro. Queiramos admitir ou não, a “cara metade” deve, necessariamente, comungar desses princípios básicos de convivência, respeitando a se importando com a mulher com quem se casou, vendo-a como um ser individual, diferente dele, física e psicologicamente. Estar em comunhão com o outro, dar-se direitos iguais, estabelecer relações coordenadas. Pode ser difícil, mas não é impossível.

Não há independência na subordinação. Um casal precisa assemelhar-se aos trilhos de um trem, correm paralelos, tem a mesma importância no trajeto, mas são autônomos, individuais. Os valores essenciais têm de ser os mesmos, a boa educação, o respeito mútuo não podem ser negligenciados.

Não me parece que ser independente e casada seja impossível às mulheres de hoje. Não vejo também necessidade de deixar de viver as emoções do amor compartilhado, muito menos de isolar-se na solidão para poder ser independente. A verdadeira independência é um sentimento, um estado de espírito, uma garantia de sobrevivência aconteça o que acontecer. É maturidade e sabedoria, que precisa ser buscada e lapidada a vida inteira. É crescimento emocional.
Ser independente e amar, casada ou não? Com certeza, sim.

Maria Alice Guimarães

25 de agosto de 2009

UM MUNDO SEM MULHERES

Hoje me peguei imaginando como seria um mundo sem mulheres. Só homens! Todos fazendo o maior esforço para ficarem malhados, bem vestidos, ostentando carros potentes e luxuosos. Tudo isso sem que nenhuma mulher pudesse ver. E eles ali, sem ter ninguém a quem se exibir, sem ninguém a quem impressionar, muito menos conquistar. Só sujeitos iguais a eles, variando apenas a forma física, uns barrigudos, outros de bigode, uns saudosos petês de barba e de aparência desleixada, pois o resto se engravatou. Um mundo só de homens, seria, no mínimo, engraçado, não fosse um grande erro da criação.

Sem mulher o mundo não iria à frente. A mulher é a força propulsora de tudo, é quem detém o poder. É ela quem decide, desde a compra da casa, do carro, o filme a ser visto no sábado à noite, onde a família irá passar as férias, a cor das cuecas do marido. Parando por aí, pois a lista é muito grande, mas sem deixar de concordar que supermercado só existe porque existe mulher. O mesmo se pode dizer das floriculturas e das lojas de sapatos. Essas, então só existem porque as mulheres , além de comprar seis pares a cada estação ainda levam um pra cada filho e um pretinho básico para o marido.Tirem as mulheres do mundo e ele acaba. Acabam as baladas, os barzinhos de paquera, a beleza feminina nas areias das praias. Já o mesmo não aconteceria se os homens não existissem.

Tudo funcionaria do mesmo jeito. Mulher não se veste, não se produz nem se enfeita para os homens, mas para si mesmas e para provocar a inveja das outras mulheres. Isso já foi comprovado, até em pesquisas científicas. Sozinhas no mundo e sem as restrições masculinas aos gastos exagerados, a roda econômica giraria com maior rapidez, haveria mais perfume no ar, mais flores nos vasos. Sem mulheres teríamos um mundo catastrófico, inviável, insuportavelmente desarrumado, com muito pouca cor e sem a menor graça. Não haveria crianças e nem sogras, sem batom e sem xampu, sem aquele "glamour" que só as mulheres possuem para fazer, de repente, o mundo parecer perfeito.

Mulher tem sutileza, brilho nos olhos, sabe agradecer com ternura, chora e confessa o que está sentindo. E muitas querem mudar o mundo para melhor, é claro.Se, como disse Drummond, os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer. E há muitas mais radicais que consideram os homens perfeitamente dispensáveis (lembram do Relatório Hite?) Descobriram que podem fazer tudo o que um homem faz, desde trabalhar e sustentar a casa, mantendo, por acréscimo, conforto da família , dirigir o próprio carro e operar outras máquinas menos convencionais.Mas pensando bem, seria um mundo muito sem graça, considerando que toda essa mulherada não teria com quem brigar e seria obrigada a viver em paz.
Melhor que fique como está e que o Criador me perdoe a heresia .

Maria Alice